no livro cartas a um jovem poeta de rainer maria rilke, o poeta alemão diz “seja paciente com tudo o que não está resolvido em seu coração. tente amar as próprias interrogações, como se fossem quartos trancados ou livros escritos num idioma estrangeiro. não procure agora as respostas que não podem ser dadas, pois você não seria capaz de vivê-las. e o importante é viver tudo. por enquanto, apenas viva as perguntas. talvez então, pouco a pouco, sem mesmo perceber, você possa, em um dia distante, conviver com as respostas”.

aqui segue uma lista com 10 filmes sobre personagens em busca de suas próprias respostas, criadas em volta de uma honestidade atemporal, assim esperamos, que traduzem um pouco o desafio de crescer e desenvolver uma vida que seja nossa, na mistura de expectativas da nossa geração, de outras gerações, dos limites e liberdades que ajudam e confundem.

a lista não segue ordem e o objetivo não é tanto apresentar filmes que a maioria não viu, e sim, mencionar aqueles que se aplicam bem ao tema.

 

1. my brilliant career / sybylla melvyn / 1979

 

still do filme my brilliant career natalia sanabria de mello

 

judy davis, a atriz favorita de woody allen, aqui interpreta uma moça à frente de seu tempo, em 1890, na região rural da austrália. sybylla lida com a pressão para se casar, ter uma carreira que renda financeiramente e mais importante, comportar-se como uma verdadeira lady. naquela época, isso significava também ser ignorante aos olhos dos homens.
melancólico, bonito e para se ver numa tarde ventosa, daydreaming.

 

2. lost in translation / charlotte / 2003

 

still do filme lost in translation natalia sanabria de mello

 

todo mundo tem esses momentos em que você tem ótimos dias com alguém inesperado, então você tem que voltar para a vida real, mas aqueles dias deixam uma marca em você.
sofia coppola

 

sofia é perita em adolescentes e adultos que ainda não se acharam no mundo, e embora todas as suas obras representem bem complexas personalidades femininas, é difícil não dizer que seu melhor filme ainda é encontros e desencontros. foi a mistura de bill murray, a trilha sonora puxando pro rock, as cenas com luzes neon e o charme de scarlett johansson que conquistaram nossos corações. mas o filme é mais do que isso, trata principalmente de solidão e de como, às vezes, amigos e namorados não se encaixam no autoconhecimento.
cai como uma luva para se ver naqueles dias estranhos e saudosos, em que nada parece fluir.


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3. ghost world / enid / 2001

 

still do filme ghost world natalia sanabria de mello

 

independente de as personagens de thora birch e scarlett johansson não serem exatamente exemplos de seres humanos (risos), todo mundo já foi como elas: condescendentes, irônicas, cretinas e entediadas além do suportável com os outros e consigo mesmas. o filme é engraçado, sabe ser sentimental quando deve e talvez diga muito mais sobre as esquisitices do mundo adulto do que sobre suas personagens em si.

 

4. frances ha / frances / 2012

 

still do filme frances ha natalia sanabria de mello

 

sou muito fã do noah baumbach, que não é exatamente um diretor fácil, por não se encaixar tão bem no indie como wes anderson e nem no pop, como cameron crowe. noah tem uma linguagem leve, desafetada e curta, que chega ou não chega a seus espectadores e ao que me parece, isso pouco lhe interessa. a ideia é o humor, o aroma. frances ha é por isso sua melhor obra pois consegue tocar um pouco mais e chegar um pouco mais longe.
lindo cinematograficamente, lembrando clássicos que amo como manhattan do woody allen, o longa aquece o coração, como esperado. coloca em pauta relações humanas importantes que raramente são o foco do cinema, como amizades femininas, fugindo da dinâmica homem vs. mulher tão inesgotavelmente explorada.
melhor do que muitos diretores, noah captou perfeitamente a geração brooklyn, a geração-quero-ser-cool-acima-de-tudo, representando muito bem aquela sobre-intelectualização de tudo que é pouco útil na hora de estabelecer uma verdadeira conexão com as pessoas.
ponto a mais pela sacada da trilha sonora que contém este clássico do david bowie.


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It’s not really work
It’s just the power to charm
I’m still standing in the wind
But I never wave bye bye
But I try, I try



5. the royal tenenbaums / margot / 2001

 

still de margot do filme the royal tenenbaums natalia sanabria de mello

 

falando de diretores indie, wes anderson é outro obcecado pela transformação de adolescente tardio em adulto (se é que a transformação acontece para seus personagens). pensei em citar rushmore que acho que é um filme que representa mais o tema, mas continuo com margot tenenbaum. margot é a musa de qualquer fã da cena independente. introspectiva, depressiva, inteligente e livre de moralidades falsas. ela parece inatingível, mas ironicamente é incapaz de ser quem ela realmente é para sua família. apesar de seus 32 anos, ela é ainda um mistério para quem a rodeia, e talvez esteja aqui outro desafio de crescer: além de nos encontrarmos como indivíduos, como encaixamos isso no ambiente em que vivemos, para as pessoas que amamos?


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6. tracks / robyn davidson / 2014

 

still do filme tracks natalia sanabria de mello

 

no filme, robyn davidson, interpretada pela ótima mia wasikowska diz “a viagem não foi concebida como uma aventura, na questão de provar ou conquistar algo. quando as pessoas me perguntavam por que eu estava indo, minha resposta normalmente era: por que não? mas principalmente, eu estava entediada com a vida na cidade, com as suas repetições, minhas mal-terminadas, mal-intencionadas tentativas de empregos e vários estudos. e eu estava cansada de carregar o comodismo negativo que era tão comum da minha geração, minha classe e meu sexo.”
robyn ficou famosa por criar uma expedição para cruzar sozinha um deserto na austrália, após criar camelos para carregar sua carga. aos 27 anos, ela cruza o deserto e vira capa da national geographic.
muito interessante para entender as efemeridades da vida na cidade e o contraste disso com a vida na natureza, e o quanto dos dois deve e pode nos influenciar.

 

7. ginger & rosa / ginger / 2012

 

still do filme ginger e rosa natalia sanabria de mello

 

ginger & rosa é sobre infância-juventude, como é difícil encaixar uma na outra depois que se passa aquela linha da inocência. ginger começa a conhecer o mundo como nunca antes, de forma dura e dolorosa, na londres dos anos 60, que explode de revoluções, ativistas e sexualidade. o mais interessante da trama é a forma como ela nos prova que é possível superar nossas diferenças com os outros, não nos desrespeitando, mas sim, seguindo em frente com o que é lúcido e importante para nós.

 

8. black swan / nina / 2010

 

still do filme black swan natalia sanabria de mello

 

relaxar, claro, é a primeira lição que o dançarino aprende.
henry miller

 

o clássico de darren aranofsky não é só uma lição cinematográfica de todos os ângulos possíveis, é também uma análise tão ampla e profunda do ser humano que fica difícil dizer qual é o tema principal. a pressão, tão sentida no mundo do balé, é parte ativa na vida de todos nós, enquanto buscamos o que queremos ser para nós e o que queremos ser para os outros. na tentativa de unir os dois mundos e encontrando uma dificuldade extrema em suceder nessa tarefa.
natalie portman traz possivelmente neste filme, uma das melhores atuações de todos os tempos do cinema.

 

9. before sunrise / céline / 1995

 

still do filme before sunrise natalia sanabria de mello

 

o primeiro da trilogia sobre o casal favorito do cinema, céline & jesse, é talvez o mais querido pelas massas e não é à toa. seus personagens, ainda ingênuos e jovens, apaixonam-se por completo um pelo outro e pela possibilidade de viverem sempre na utopia de seus dias, na viagem mais importante de suas vidas. conversas despretensiosas, uma curiosidade infinita em se conhecer, a falta da pressão da rotina e das responsabilidades são o centro desta história de amor. o filme é sobre essas primeiras relações que temos e a trilogia é num todo interessantíssima por saber tratar tão honestamente da transição difícil dos amores platônicos, mal exercidos, para as relações reais, saudáveis e funcionais da vida adulta.

 

10. la double vie de véronique / véronique & weronika / 1991

 

still do filme la double vie de veronique natalia sanabria de mello

 

este não é um filme tão acessível quanto os outros, mas é essencial à lista. trata de intimidades e complexidades femininas de uma forma mais romântica e incrível visualmente. é um dos que mais me inspiram até hoje, ainda mais sobre o mundo feminino, seus mistérios, intuição e múltiplas personalidades.

 

por natalia mello