“O que posso nomear não pode, na realidade, me ferir.” 1

 

“Você pensa no exterior do teu quarto, nas ruas da cidade, nessas pequenas praças solitárias perto da estação. Nesses sábados de inverno iguais entre si

E depois você escuta esse barulho que se reaproxima, você escuta o mar.
Você escuta o mar. Ele está muito próximo das paredes do quarto. Pelas janelas, sempre essa luz descorada, essa lentidão do dia em ganhar o céu, sempre o mar negro, o corpo que dorme, a estranha do quarto.” 2

 


Alba, do espanhol, tradução livre, aurora. Aurora, da língua portuguesa, “1. período antes do nascer do Sol, quando este começa a iluminar parte da superfície terrestre ainda na sombra” ou ainda “variedade de cor-de-rosa composto de branco”.

O trabalho da catalã Alba Yruela é no seu todo um desejo de correspondência, porque enquanto imagens, suas fotografias são confissões e diários, relatos íntimos, mas como discurso alcançam um universo maior, extrapolam o privado, a experiência própria e constroem uma atmosfera de existência e silêncio.

“A vidência do fotógrafo não consiste em ‘ver’, mas em estar lá.” 3 “Toda fotografia é um certificado de presença.” 4 A fotografia como um testemunho de que algo existiu e isso em seu mais amplo significado, a existência é correlata, todos existimos e deixamos provas das nossas existências até que o nada nos consuma; a fotografia, enquanto resultado, seria pois o esvair da existência, “Ela não voltará nunca.” 5  A imagem e tempo se definham e nos transformamos em outra coisa na medida em que o tempo passa, nossas fotos são discursos fragmentados de um “aqui”, mas que já se prostra para um “depois”.
A fotografia talvez seja a mais melancólica das artes porque diz respeito a um devir esvaindo.

Alba entende isso e transforma seus relatos em discursos silenciosos, imagens pacíficas e retilíneas, como um instante em que uma mosca pousa sobre um fio tênue e tensionado, na miudez do seu vôo e na iminência da sua queda, como o torrão de açúcar que vai derretendo no café na cena de Bleu. Tudo pertence ao mesmo silêncio, às coisas que acontecem e que são abafadas pelos ruídos da vida, das nomenclaturas e guerras cotidianas, os desesperos.

 

 

Em  LFDM La Forma del Món, o zine e a mostra de Alba e seu companheiro Rafa Castells, as imagens integram um único conjunto, quase inseparável, não se sabe qual foto é de quem, e todas formam um corpo só. A edição é subjetiva, instintiva e transfere o raciocínio do amor, “penso em você. Quer dizer esquecê-lo (sem esquecimento, não há vida possível) e despertar muitas vezes desse esquecimento. Muitas coisas, por associação, inserem você em meu discurso. (…) Em si, esse pensamento é vazio: não o penso; simplesmente faço-o retornar (na medida mesma em que o esqueço). É a esta forma (a este ritmo) que chamo “pensamento”: nada tenho a dizer a você.” 6 A fotografia dos dois é este jogo, o de despertar e adormecer — não nesta ordem — para o que são, e eles nada têm a dizer a si próprios, nem a nós, é apenas o exercício da existência.

 

alba yruelaalba yruela

 

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1 3 4 Roland Barthes, A câmera clara: nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, pag. 80, 76, 129.      2 5 Marguerite Duras. O homem sentado no corredor e A Doença da Morte. São Paulo: Cosac Naify, 2007, pág. 75, 83.            6 Roland Barthes. Fragmentos de um discurso amoroso. São Paulo: Martins Fontes, 2003, pág. 45-6.

 

fotos por Alba Yruela
texto por Matheus Chiaratti