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com as mãos e o coração: capotinhos & renata miwa

pessoas que fazem coisas se erguem através da criação“, diz a mãe da cineasta yuki kokubo, no documentário intitulado kasamayaki. ela aparece moldando com um cuidado já quase automático uma série de gatinhos com olhar sereno, enquanto divaga sobre aleatoriedades que parecem banais, mas fazem toda a diferença (o pai de yuki também é ceramista). essa sutileza nos faz lembrar que a cerâmica é uma arte que, dentre outras coisas e de alguma forma, celebra a imperfeição, e um tanto quanto o acaso também. o material aparentemente controlável é moldado, secado, esmaltado e levado ao forno e, a partir daí, qualquer coisa pode acontecer. mesmo.

 

KASAMAYAKI Trailer from YUKI KOKUBO on Vimeo.

 

a renata e a natasha talvez não saibam, mas eu as acompanho virtualmente há alguns anos, separadamente, em meio a traços e rabiscos. minha surpresa foi grande e empolgante ao descobrir que as duas estavam mergulhando na cerâmica. “talvez não exista passado nem futuro, somente um perpétuo presente contendo essa trindade da memória“, diz patti smith em linha m., e é assim que enxergo esses objetos feitos à mão — sem passado, sem futuro, com um presente gigantesco e infinito onde cabe tudo, um universo inteiro… convidei as duas para se entrevistarem:

renata entrevista natasha

 

capotinho

capotinhos

capotinhos

nhóin <3 capotinhos em uso

natasha & capotinho em produção

 

> desde quando você se interessou por cerâmica?
Em 2014 eu estava completamente desiludida com minha profissão. Me formei em design mas o dia a dia do trabalho era tudo menos criação. Para alimentar minha criatividade acabei caindo em três cursos que trabalhavam as mãos: violino, cerâmica e mais para frente, jardinagem. Me envolvi muito com os três, mas o que durou e me fisgou mesmo foi a cerâmica.

> por que cerâmica?
No início eu só queria algo que me permitisse inventar o que eu quisesse, com liberdade e muitas possibilidades. Depois fui descobrindo mais e percebi que mexer com cerâmica é muito amplo. É preciso trabalhar a paciência, pois o processo é lento e com muitas etapas; trabalhar o desapego, já que muitas peças não saem como você espera ou se desmancham no caminho; e ter vontade de estar sempre aprendendo, porque esse universo é tão complexo que parece que você nunca dominará tudo.

> como vc se sente ao trabalhar com esse tipo de material?
Tornear uma peça é completamente imersivo. A cabeça se esvazia e toda a concentração vai para as mãos. Trabalhar com barro também é se conectar com a terra e se envolver com suas transformações.

> quais são os projetos ou projeções para o futuro com capotinhos?
Estou tentando ir com calma. Ao mesmo tempo que é muito legal ver suas peças se espalhando por aí, eu sinto que eu tenho muito o que aprender. Comecei fazendo copinhos e vasinhos e agora estou expandindo para móbiles, luminárias e potinhos para bichos de estimação. Agora, só o que consigo imaginar para o futuro é há muito o que ser explorado.

> quem são as pessoas que te inspiram nessa arte?
Cerâmica é uma arte muito antiga, então a lista de inspirações é bem extensa. Eu acabei me identificando e me inspirando em alguns ceramistas contemporâneos, como Leah Jackson, o maravilhoso Group Partner, a vibração do Tactile Matter, mas também não dá pra negar os japoneses gênios da tradição como por exemplo a ceramista Shoko Suzuki.

 

natasha entrevista renata

 

renata miwa

renata miwa

renata miwa

renata miwa

 

> como foi sua trajetória até hoje na cerâmica?
Bom, desde que sou pequena tenho vontade de trabalhar com algo que envolvesse criatividade. Antes de começar a faculdade, pensei em trabalhar com revista, sendo jornalista ou designer. Faltando 6 meses do vestibular, me inscrevi em publicidade e propaganda. Trabalhei como redatora e planejamento por um ano, depois trabalhei com revista por um tempão e aí achei que era hora de transformar meu hobby de ilustrar em profissão e no meio do caminho desse processo descobri a cerâmica. Não quis largar nem o design, nem o desenho, nem a argila e hoje trabalho com as três coisas – às vezes ao mesmo tempo, às vezes separado.

> como é seu processo de criação?
Começa com muita pesquisa na internet, na rua, nos bate papos com os amigos, em filme. Depois, vai pro papel onde rabisco e penso em várias ideias. E por fim é testando, seja ele no papel, no computador ou na cerâmica.

> por que você acha que tem crescido o interesse por cerâmica principalmente em São Paulo e outras capitais do Brasil?
Acho que as pessoas estão cada vez mais procurando uma forma de se entender, de relaxar, de esquecer o mundo burocrático que muitas vezes precisamos estar inseridos pra pagar as nossas contas no final do mês. A cerâmica tem sido uma dessas atividades. Mas vejo também que tem bastante gente interessada em jardinagem, bordado, costura etc.
Acho também que com o boom das feiras de produtores independentes, as pessoas também começaram a se interessar mais pelo handmade.

> quais são suas influências e inspirações?
Na ilustração eu tenho muita influência da Anke Weckmann, Julia Pott, Gemma Correl, Yoshitomo Nara, . Na cerâmica, Nathalie Choux, Miru Brugman,  Éric Hibelot, BBDW, Jenn Collins e mais um montão de gente.

> que dicas você daria pra quem está interessado em começar?
Faça, faça e faça. Sem pensar e se preocupar com o que vai resultar. A parte mais importante na criação não é o resultado final e sim o processo todo dele.
Não tenha medo de falhar, porque falhar é inevitável. Não espere estar pronto, porque você nunca estará (e se sentir que está preparado, tem algo errado aí).

 

por mariana t. k.

efemeridade e ouroboros – fernanda grizzo

fernanda grizzo


às vezes levamos um susto ao constatarmos que nem tudo que gostamos ou queremos fazer precisa estar vinculado diretamente com “ganhar dinheiro” – quantos projetos pessoais você deixou de lado por achar que não valia a pena porque não traria algum tipo de retorno financeiro? às vezes temos a oportunidade de simplesmente fazer. criar. fazer nascer. e quando isso acontece, nosso mundo dá um leve chacoalhar que nos faz suspirar e perceber a imensidão em que estamos imersos e mal nos damos conta. não? acontece comigo. às vezes.
aconteceu quando vi o trabalho sutil, forte e lindo da fernanda grizzo, que produz joias:


como é sua relação com trabalho? existe alguma linha divisória entre o que você faz e o que você é? Minha relação com o trabalho é um tanto esquisita, não consigo dissociar de quem sou, dos meu valores e modo de vida do que eu faço, e esse foi um dos grandes motivos que me fizeram abandonar o curo de psicologia e abraçar o design de joias. Eu ficava numa agonia tremenda de ter escolhido uma profissão que não se encaixava com a minha ideia de felicidade, que não me permitiria trabalhar em casa, viajando, ou que tivesse uma estrutura muito rígida. Não me dou nada bem com coisas rígidas demais e, até hoje, sendo designer, me pego questionando o motivo de ter que trabalhar pro resto da vida, sabe? No começo do curso eu estava muito frustrada com esse lance de fazer ornamentos estéticos e consumistas, inclusive na faculdade te ensinam muito como pegar na veia da necessidade supérflua e explorar isso ao máximo, e eu me recuso a fazer isso, não acredito em um mundo movido a desejos momentâneos, e vivo brigando internamente com essa realidade, então tento trazer nas minhas joias outras coisas.

há vários momentos em que precisamos nos renovar/reinventar/renascer de alguma forma. pra você, como isso acontece? Me reinventar e renovar nunca foi um grande problema, sempre mudei muito de cidade e tive que lidar com essa realidade desde sempre, além de ser geminiana, o que também ajuda muito nessa questão das mudanças. Meus processos de renovação são bem orgânicos e fluidos: começo a ficar frustrada e incomodada com algo e me recolho para processar o que é toda a situação, me trabalhar internamente para ressurgir em uma nova pele. Como estudo xamanismo, paganismo e ocultismo, aprendi a respeitar e entender minhas mudanças lunares e menstruais, que ocorrem mensalmente, assim como as mudanças anuais. A natureza passa por ciclos de vida e morte naturalmente, e nós, como espelhos que somos dela, passamos pelas mesmas energias; o problema é que muitas vezes lutamos contra o fluxo externo, e isso causa muita angústia. Aprender a fluir com as estações e com a minha lua foi de importância imensa nesses processos de mutação, tudo fica bem mais fácil quando entendemos as energias que nos são internas e externas e sincronizamos as duas.


fernanda grizzo


o que te atrai – ou te atraiu – no universo do design de joias? como é seu processo criativo? Quando eu pensei em fazer Design de Joias tive um estalo, não pensei muito, exaustivamente, sobre isso. Desde pequena eu tenho muita facilidade com trabalhos manuais, sempre gostei de ferramentas e entendi o mecanismo das coisas, então acabei juntando o útil ao agradável. Quando cheguei na faculdade foi um choque, além de eu não saber nada sobre designers, marcas e outras nuances do mercado, descobri que minhas expectativas com o curso eram um tanto diferentes do que as dos demais. Meu processo criativo é indissociável dos meus processos fora do ambiente profissional, então conto muito com a intuição, o meu sentir e a ajuda da espiritualidade, que sempre me ampara e abre portas que eu nem imaginaria possíveis. Começo muitas ideias, largo mil pela metade, volto pra essas ideias depois, é uma confusão, não é nada linear. Pra mim, é de extrema importância poder me recolher, passar tempo sozinha, observar meu mundo interno, e também meus estudos no mundo ocultista, pois são eles que me trazem material para estimular veias de cura e reflexão, redescoberta de quem se é, através das joias.

você passa por instantes offline? ou tenta estar sempre online? como você costuma lidar com tecnologia & internet, nesse sentido? Eu costumo ter momentos offline, que são absurdamente libertadores. Queria poder viver desconectada sem prejuízos sociais e econômicos, mas como me mudo muito e minha maior plataforma de vendas e divulgação é a internet, acabo ficando muito tempo online. Me incomoda muito uma percepção que tive recentemente, sobre como estar sem fazer nada ultimamente tem significado pra mim, estar online está na lista de mudanças a serem feitas na vida, inclusive.

o que te faz se mover? e o que te aquieta? A vida me faz me mover, perceber o quão injustas são as coisas, os meios de produção, a sociedade como um todo, me faz ter um gás enorme pra buscar novos meios de vida e de ação. É quando eu me pego nos piores momentos de desespero com esse sistema de produção escravizante que eu respiro fundo, e me lembro que se ninguém agir pela mudança, vamos continuar na mesma, e mano, QUE REALIDADE HORRÍVEL. É muito uma questão do se mover por necessidade mesmo, fico sempre buscando um plateau onde tudo seja estável e calmo, e fico triste por perceber que talvez nunca chegue a viver essa realidade, mas vamos fazendo o possível, sem perder a cabeça e sem se sacrificar pelos valores vigentes. O que me aquieta é a espiritualidade, o contato com meus guias, meus Deuses, meus momentos sozinha, a companhia das pessoas com quem me identifico num nível bem profundo, os rituais que faço, enfim, o contato com meu ser mais profundo e selvagem.

quais são suas coisas (qualquer coisa!) favoritas atualmente? Minhas coisas favoritas atualmente são meu clã de xamanismo, As Filhas da Terra, meu coven de bruxaria, os estudos nessa área, que não me cansam nunca, sempre tem algo novo a aprender e descobrir. Me deleito resolvendo antigas questões do meu ser nessas ocasiões. E dormir, sempre amo dormir.

descreva seu lugar preferido: Eu não tenho um lugar preferido, talvez seja meu quarto. Quando eu tinha um carro era meu carro, na estrada, sozinha.

quais são seus planos para o futuro próximo? Atualmente meus planos são me formar, hahahaha, abrir oficialmente a loja da Ouroboros, terminar minha iniciação na magia, e fazer circular na casa que moro atualmente rituais, cursos, rodas de cura e outras coisas envolvidas. Acho difícil fazer planos de longo prazo, pois além de nunca seguir esses planos, como eu disse, detesto coisas rígidas, então vou vivendo e deixando a vida acontecer, confiando no meu caminho, no meu coração, e na espiritualidade que me guia.

como você conversa consigo mesma? Com a boca, falando mesmo, tirando Tarot, meditando, e principalmente com as medicinas da floresta, que me fazem ter as conversas mais incríveis comigo mesma.


fernanda grizzo fernanda grizzo

por mariana t. k.

sabrina gevaerd

sabrina gevaerd

 

sabrina gevaerd mora em brusque, santa catarina, começou a trabalhar com design em 2010, mas com o autoral só em 2015. assim que o trabalho dela apareceu pra mim por redes sociais, não pude deixar de me apaixonar pelas mulheres de seus desenhos, sempre tão livres sexualmente, envoltas em uma aura colorida & florida de prazer e sisterhood.

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entrevista manuscrita #8 – juliana lois

juliana, que pra mim é j., jln, j u l i a n a & variantes, um prisma que brilha no sol e reflete arco íris. nossa amizade/ligação vem de um causo particularmente bastante importante na minha vida, uma das mais impactantes e significativas até hoje; foi em 2014 que começamos a trocar longos e-mails, com relatos do dia a dia, pensamentos aleatórios, indignações e espelhamentos de algum tipo. não nos conhecemos pessoalmente ainda, porém sua presença na minha caixa de entrada é guardada a chaves de ouro & glitter, e só espero que isso se propague e se estenda ao máximo possível. j., obrigada pelas respostas, pelo carinho, cuidado, pelo caderno feito 100% à mão, pelas conchas, confidências, palavras e escritos. o mais bonito dos sentimentos,
transbordante,
m.

 

entrevista manuscrita lois

 

 

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duas meninas trocam e-mails por 9 anos

…e resolvem fazer uma entrevista de 20 perguntas uma com a outra, só por diversão, falando sobre nossa geração, desejos internos, futilidades essenciais.

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a word after a word after a word is power – sofia soter

* a frase que dá título ao post é de autoria da margaret atwood

 

sofia soter

arquivo pessoal

sofia soter

arquivo pessoal

 

quando soube que estava para nascer uma revista online voltada ao público adolescente, lembro de ter comentado algo como “que ideia linda! meu ‘eu adolescente’ teria surtado com isso anos atrás, mas meu ‘eu adolescente interior’ está achando maravilhoso”. assim que saiu a primeira edição da revista capitolina, tudo que consegui fazer foi balançar a cabeça em um exagerado “SIM!!!!”, e assim tem sido desde então. com colaboradoras de variadas cidades, gostos e idades, a capitolina tem sido um abraço apertado pra quem, como eu, passou a adolescência seguindo dicas sobre como ser conquistada (e não o contrário, óbvio que não), ficar bonita (porque você não é) e abobrinhas afins. até hoje lembro claramente de uma delas, endereçada aos meninos (!): “nunca diga a ela que ela é bonita, e sim que ela está. assim, ela vê que é preciso um esforço para estar sempre bela” (um minuto de silêncio por todo esse tempo desperdiçado).

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uinverso

no mundo online em que vivemos, não é só pelas criações artísticas em si que nos apaixonamos, mas também, por todo o ambiente que acompanha as criações, as documentações do processo criativo, os momentos de ócio. assim também é com o universo do uinverso, do qual sou muito fã, com seus desenhos delicados, tropicalismo e musas registradas tão bem pelo lápis que fico com vontade de conhecê-las pessoalmente. é lindo acompanhar as luzes das fotografias, os ângulos, as molduras, o cuidado especial.
conheçam as irmãs nadiuska & priscila furtado pela breve e fofa entrevista que fiz com elas.

 

(todas as fotos a seguir são de autoria/acervo do uinverso)

 

 

uinverso uinverso

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como o amanhecer – noelle piasetzki pt. 2

esta é a segunda parte da entrevista com a artista de curitiba, noelle piasetzki. enjoy!

 

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como o amanhecer – noelle piasetzki pt. 1

 

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noelle piasetzki natalia sanabria de mello

 

 

Uma vez perguntaram ao Picasso o significado de suas pinturas. Ele disse, ‘Você sabe o que os pássaros cantam? Você não sabe. Mas você os escuta mesmo assim.’ Então, às vezes com arte, o importante é apenas olhar.
Marina Abramović

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entrevista manuscrita #7 – mariana pereira

(sim, eu sou rodeada de marianas lindas, de ótimo gosto, referências, inspiradoras, etc. rá)
conheci a mari (mariana pereira) também na época dos blogs; ela usava uns templates muito bonitos e além de outras coisas, compartilhávamos o amor por tudo que era relacionado ao universo harry potteriano. hoje, alguns bons anos depois, ela é formada em design (seu trabalho de conclusão de curso foi uma revista!) e ocasionalmente ainda trocamos cartas.
a mari é criativa, artsy-artista-designer no melhor dos sentidos, introspectiva como eu & me inspira todos os dias. muitas vezes, ela é minha ponte com coisas japonesas (haruki murakami, hayao miyazaki + ghibli, o próprio nihongo ou a língua japonesa, o qual ela está estudando, só pra citar alguns), o que sempre me faz lembrar das coisas boas e bizarras do japão.
quase nos conhecemos pessoalmente  pelas minhas contas recentes — duas vezes mas ainda não rolou de verdade. quero voltar ao rio de janeiro, onde ela mora, e espero que ela volte logo pra são paulo também! 

mari, obrigada por tudo, sempre. :’)


entrevista manuscrita entre mariana t. k. e mariana pereira

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