há tempos que quero fazer uma entrevista com a débora berté, porque além de ser alguém que admiro e acho que sempre tem idéias interessantes, eu e a debys nos conhecemos ainda adolescentes e conseguimos manter o contato e a forte identificação. eu fico muito orgulhosa de ver ela crescendo como artista, pois não imagino outra profissão que a represente mais!
seus trabalhos falam muito do mundo feminino e do que é ser mulher, a repressão e sexualidade. a debys mora em curitiba e está no último ano de belas artes. as fotos são de seus trabalhos e de seu apartamento e foram tiradas pela nossa contribuidora, kati ferreira (‘brigada, kati!).

 

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o que te fez escolher a arte como profissão?
Nunca foi uma escolha, sempre senti que qualquer outra coisa seria um desperdício de energia, e toda vez que eu tentava fugir disso me sentia adoecida. Também sempre tive uma tendência para um drama introspectivo, e sempre me vi desde pequena como uma sofredora profissional e passional, a arte me caiu como uma luva. Como negar a si mesmo algo altamente pecaminoso como a arte?

 

como você definiria seu estilo e seu trabalho?
Acho que seria injusto me definir agora, eu ainda tenho tanto a aprender, vivenciar e descobrir. Acho que a única coisa definida do meu trabalho é a temática: eu não consigo negar e me distanciar do fator relacional de ser humana, do desejo desesperado de se relacionar, da fragilidade das relações e do próprio corpo humano.

 

o que continua te motivando a trabalhar com arte?
Esses dias eu escutei de uma professora que deveríamos sempre nos lembrar que a arte não vai salvar o mundo, e que em diversos momentos da historia da humanidade, a arte teve que dar lugar para coisas mais urgentes. Engraçado que eu sempre repito para mim mesma que eu quero viver e não sobreviver, o que é um grande conflito para alguém como eu que escolheu um mundo arriscado. Mas acho que eu posso responder isso dizendo que toda vez que eu entro em crise (e você sabe que não são poucas), eu me movimento energeticamente para criar algo e aquilo me alivia, me salva.

 

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eu lembro que um dos primeiros contatos que tivemos foi por fotolog, e depois até fizemos uma conta juntas que homenageava mulheres que nos inspiravam. pj harvey, courtney love, brody dalle, virgina woolf, etc. sempre nos atraímos pelo mundo feminino e ele é sempre presente no seu trabalho. quem é a mulher dos seus sonhos ou da sua arte?
Ai, que saudade de ter pastas e mais pastas da PJ Harvey no pc! Sabe do que eu me toquei agora? A gente sempre buscou por mulheres que nos lembrássemos que temos direito a liberdade, e que mesmo vindo de um buraco na terra onde cai muita água, podemos ser mais livres. Mas acho que não vou escapar do clichê, e dizer que a Frida Kahlo é uma das minhas pessoas favoritas no mundo inteiro. No meio de catástrofes, ela foi uma das mulheres mais livres que eu já ouvi falar. Ela negou o surrealismo, teve um caso com o Trotsky e não deixou o seu sexo ser limite para nada. Ao mesmo tempo ela era forte, mas não negava suas fraquezas e seus medos, ela os carregava lado a lado, vivendo intensamente cada um deles. Fico imaginando como seria todo esse poder sendo exercido no contemporâneo, acho que ela teria uma seita ritualística. Não, eu não acho, mas se tivesse eu com certeza frequentaria.

quem são suas heroínas?
Patti Smith a poeta, PJ Harvey criadora do sexo em versão musical, Tilda Swinton dois maridos e uma gênia esquizofrênica que me faz acreditar que ela é todas aquelas pessoas que ela interpretou, Bettie Davis porque eu ainda quero ter um schnauzer chamado Baby Jane, as putas do Toulouse Lautrec, Camille Claudel, Patricia Franchini, Marina Abramović, Adriana Varejão, Hadley Richardson, Diane Arbus, Iris Saber, Fiona Apple, as mulheres da minha família, Inez van Lamsweerde, Hellen Jo… são incontáveis. Com algumas tenho um relacionamento novo e de outras já sou amante antiga. Todas, em seus respectivos processos criativos, são mulheres pra quem eu prepararia um bom bolo de chocolate, abriria minha melhor vodka e cederia minha cama só para sugar um pouquinho de todo seu conhecimento e experiência.

você se autorretrata? se sim, como é a experiência?
Sempre, afinal, eu sou a única que posso viver minhas experiências e não seria justo dar o posto de musa da minha vida para outra pessoa. (O autorretrato) sempre foi um exercício, se posso chamar assim, desde pequena quando desenhava índios na sala de casa, todos eles tinham um pouco de mim, coisa que eu não notava, mas que era sempre evidenciado pela minha mãe. Mais tarde passou para autorretratos fotográficos, que hoje já não me empolgam muito. Minha necessidade ficou mais introspectiva, por mais que eu tente parar meu inconsciente, (o autorretrato) sempre me trai.

 

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qual é a sua parte favorita no processo de criação?
Tem uma energia espiritual que rola, um instinto no começo e um êxtase logo depois que eu termino algo. É quando me sinto livre. Me xinguem, eu sou romântica.

 

como seria seu sábado perfeito?
Acordar tarde, cozinhar um almoço italianíssimo para os amigos, dar uma volta pela cidade vazia, um freddo para refrescar, casa, folhear meus livros, pintar e sair suja de tinta para tomar um drink e escutar some nasty rock’n’roll.

 

como seria o futuro perfeito?
Me tornar imortal e morrer.

 

 

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por natalia mello