fiona apple

 

Eu comecei a realmente gostar de música na adolescência, talvez como a maior parte das pessoas. Descobrir novas bandas era um passatempo recorrente, mas em tempos de internet discada, em muitas ocasiões, eu acabava baixando apenas uma faixa de cada artista. Foi assim que eu conheci a Fiona Apple, lá pelos meus quatorze anos, com a sua celebrada Criminal: os primeiros versos da canção dizendo I’ve been a bad, bad girl… e a intensa, hipnótica sonoridade me conquistaram de imediato. Acho que só deixei de procurar mais da Fiona por causa da fase rock’n’roll que, na época, permeava a minha cabeça.

 

Imagem de Amostra do You Tube

 

I know tomorrow brings the consequence at hand
But I keep living this day like the next will never come

 

Uns seis ou sete anos depois, o cenário se inverteu: ouvir rock’n’roll me enchia de tédio e dali fui atrás do jazz, do soul e do blues, gêneros que se carregavam de emoção, ritmos alucinantes e – por que não? – uma certa melancolia atraente. Nas minhas playlists, só cabiam as mulheres de voz forte e coração sensível. Fiona Apple, nesse momento, voltou pra ficar de vez: no rol das cantoras favoritas que tanto já me ensinaram nessa vida, Fiona ocupa posição de destaque. Vejamos se consigo explicar o porquê.

Fiona Apple tem 36 anos e é virginiana de New York City. Mais importante que tudo isso, Fiona é uma cantora espetacular e uma mulher admirável.

Desde que iniciou sua carreira, Fiona lançou quatro álbuns num intervalo de dezesseis anos: Tidal (1996), When the Pawn… (1999), Extraordinary Machine (2005) e The Idler Wheel… (2012), o segundo e o quarto com títulos tão longos que o mundo só se refere a eles pelas três primeiras palavras (se a curiosidade bater: aqui e aqui).

Fiona não está aqui para ser bonita, adequada ou agradável. Se isso já não é um tremendo respiro num mundo de cantoras pop arquitetadas para sedução a cada passo dado, não sei o que mais é. Sua música tem algumas características bem marcantes: a voz de contralto, o cantar que varia de longas notas expressivas a frases rapidamente proferidas numa quase-fala, e um instrumental rico, profundo, emocional e experimental.

 

Imagem de Amostra do You Tube

 

This is not about love
‘Cause I am not in love
In fact i cant stop falling out
I miss that stupid ache

 

Fiona também é um poço de emoções. Uma das canções que mais pesou durante o meu período de redescoberta de sua obra foi Love Ridden, que remói o fim de um romance – temática recorrente dela – de um jeito para partir (novamente) o coração de qualquer um, ao perceber que o término do relacionamento também significa chamar o ex de um nome comum e cumprimentá-lo como qualquer pessoa. O detalhe de intimidade que é ínfimo, que muita gente sequer notaria, a Fiona pega e joga na cara.

 

No, not ‘baby’ anymore – if I need you
I’ll just use your simple name
Only kisses on the cheek from now on
And in a little while, we’ll only have to wave

 

Fiona foi vítima de estupro aos doze anos de idade, evento que marcou terrivelmente sua vida e deu origem à tristíssima canção Sullen Girl, do seu álbum de estreia. Nos anos que se seguiram a essa tragédia pessoal, Fiona enfrentou todo tipo de problema de desordem psicológica: transtorno alimentar, bipolar e obsessivo-compulsivo, automutilação e depressão. Numa entrevista para a Rolling Stone há muitos anos, ela chegou a declarar que os problemas que enfrentou em relação à comida não se tratavam de anorexia, mas sim, de tentativas de eliminar a ideia de seu corpo como “isca”.

‘For me, it wasn’t about getting thin, it was about getting rid of the bait that was attached to my body. A lot of it came from the self-loathing that came from being raped at the point of developing my voluptuousness,’ she explains. ‘I just thought that if you had a body and if you had anything on you that could be grabbed, it would be grabbed. So I did purposely get rid of it.’ (fonte)

 

fiona apple fotografada por sebastian kim

por sebastian kim

 

É difícil dizer se Fiona teria ou não se tornado a mulher extremamente sensível e complexa que é, caso sua pré-adolescência não tivesse sido devastada por esse evento violento. Mas como não reconhecer que uma agressão dessa natureza é capaz de desestabilizar uma pessoa por completo, deixando sequelas emocionais para sempre?

Fiona nos lembra que a vida nem sempre é bonita – na verdade, muitas vezes, passa longe disso. Mas ela mostra que ser uma pessoa emocional e percorrer uma jornada tão cheia de percalços não significa que não se possa viver ou tirar prazer disso.

 

 

Be kind to me, or treat me mean
I’ll make the most of it, I’m an extraordinary machine

 

Fiona é mais fiel a si mesma do que a qualquer outra coisa. Não interessa saber o que é tendência, o que vende, ou talvez até mesmo o que seus fãs querem ouvir. Fiona faz o que é o seu melhor como quem puxa para fora, em forma de música, o próprio âmago despido, exposto, ferido, ressentido e cheio de defeitos. Mas julgá-la por sua aparência e emotividade e avaliá-la como frágil seria um disparate. De tudo o que há para se admirar em Fiona, o que mais me encanta é isso: a vulnerabilidade que não é fraca. Parece que ela sabe que, se os problemas da vida servirem para render alguma lição, isso não acontecerá pelo caminho fácil. E num mundo onde muito valor é dado a quem aparenta solidez e imperturbabilidade, e julga sensato e seguro aqueles que não expressam plenamente o que sentem, Fiona dá a cara a tapa, quantas vezes achar conveniente.

 

 

How can I ask anyone to love me
When all I do is beg to be left alone?

 

É curioso ver Fiona tão bem-aceita e até mais atraente ao mundo do entretenimento, visto que sua música raramente vem de forma palatável, ou sequer contempla temas que o público maior queira exaltar. Para ser justa, sua música vira pano de fundo popular adequado naqueles momentos da trama em que a personagem está no momento reflexivo de introspecção, no fundo do poço ou na queda livre logo antes da ascensão final (esperando que ela aconteça, é claro).

 

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’Paper Bag’ em Bridesmaids, filme de comédia: cai bem na cena do personagem na deprê;

 

Hunger hurts, and I want him so bad, Oh it kills
Cuz I know I’m a mess he don’t wanna clean up

 

Mas Fiona é um ser tão entregue que falar só de sua música se torna uma tarefa difícil. Sua vida pessoal pode ser discreta, mas suas frustrações, desejos e debates internos transbordam para além de suas canções, em seus desenhos e aparições na mídia.

 

03 04

 

A edição deluxe de seu último lançamento, The Idler Wheel, é um sonho para quem tem esse interesse quase voyeurístico de explorar os elementos do universo pessoal de um artista: o disco é acompanhado de uma cópia do sketchbook de Fiona, onde junto aos rascunhos das letras que formam as canções do álbum, surgem rabiscos meio abstratos e meio surreais, revelando de forma intimista mais algumas camadas da criatividade dessa incrível artista.

 

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My heart’s made of parts of all that surround me
And that’s why the devil just can’t get around me

 

Fiona também é uma alma reclusa e introspectiva, mas não tímida. Fiona não quer papo com você, mas não dá meia volta se alguém ferir seu bem-estar ou sua opinião. No fim das contas, Fiona não tem vergonha de ser quem é. Dessas virtudes que todos almejam, muitos merecem e poucos alcançam.

 

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This world is bullshit, and you shouldn’t model your life about what you think that you think we think is cool, and what we’re wearing, and what we’re saying and everything. Go with yourself.

 

por ísis daou
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