de bruxaria à possessão demoníaca, as mulheres foram acorrentadas a esses estigmas por séculos; eram perseguidas, queimadas na fogueira, enforcadas, exorcizadas e ridicularizadas em praça pública. a trancos e barrancos esses rótulos acabaram sendo substituídos pela histeria, a qual teve seu auge epidêmico no século XIX.

 

 Electro mulher histérica do livro iconographie photographique de la salpÍtriere


a histeria teve seu significado desde a época de hipócrates e vem do grego hyster, que quer dizer útero. na antiguidade, era designada como um mal que só afetava as mulheres. os sintomas histéricos variavam entre paralisia, tremores, convulsões, cegueiras e desmaios repentinos, os quais não tinham nenhuma explicação fisiológica. as mulheres que sofriam psiquicamente eram julgadas como mentirosas, manipuladoras, dissimuladas e que tudo não passava de uma peça teatral.

 

Mona ICONOGRAPHIE PHOTOGRAPHIQUE DE LA SALPETRIERE

 

frança. hospital salpêtrière. charcot. foi onde as mulheres acharam sua luz no fim do túnel. jean-martin charcot, foi o primeiro médico a ver a histeria como um caso sério e resolveu então investigar suas causas e ajudar as doentes. começou procurando a causa fisiológica dos sintomas e posteriormente utilizou a hipnose para manipular esses sintomas e tentar compreendê-los, já que a causa orgânica parecia não ter fundamento. charcot era um tanto exibicionista e acabava expondo as mulheres em suas aulas-teatro na frente de multidões de médicos e alunos, parecia estar mais interessado em ascensão social com a manipulação dos sintomas histéricos, do que a cura dos mesmos.

 

foto de sessão de hipnose de jean martin charcot

 

apesar de charcot ter virado os olhos da sociedade para a histeria, foi somente freud que deu voz à ela. teve aulas com charcot a respeito da hipnose como método e se interessou pela histeria, não só pela necessidade de compreender os sintomas. freud queria mais. queria ajudar essas mulheres. enquanto aplicava a hipnose em suas pacientes, percebeu que não era suficiente e teve certeza quando uma das mulheres pediu para que ele ficasse em silêncio para que ela pudesse falar. foi o fim da hipnose e o início da associação livre. as mulheres podiam falar a vontade o que vinha à cabeça, livre de repressões ou intervenções.

 

langue mulher histéricaatitudes passionais

 

freud compreendeu então que o sintoma histérico era causado devido a um trauma ou um fator reprimido, os quais acarretavam o sofrimento psíquico. aquilo que não era visto como são ou normal aos olhos da sociedade, principalmente as ideias de cunho sexual, eram recalcadas no recém descoberto inconsciente e ali permaneciam, gerando caos na estrutura psicológica e na vida das mulheres. o que estava guardadinho a sete chaves no inconsciente dava um jeito de escapar “sem ser notado” e assim surgiam todos os famosos sintomas, e não tinha tática melhor do que tornar físico o que era psíquico. tudo fazia sentido já que a mulher do século XIX vivia em uma sociedade onde sofria julgamentos, esculachos e repressões o tempo todo.

 

06441

 

hoje em dia a histeria não aparece como nos séculos passados, ela faz parte do pacote de sintomas de doenças psicossomáticas e outras psicopatologias e também se mostra como estrutura psíquica na clínica psicanalítica. e tem remédio melhor do que a liberdade de falar e o prazer de ser ouvido?
para entender como se deu o início dos estudos da histeria com charcot, recomendo “augustine“, o fortíssimo filme de alice winocour tendo como protagonista a cantora francesa soko. apesar do filme não fazer justiça a charcot, o fazendo passar por um médico frio e que não se importava com suas pacientes, vale a pena ver soko interpretando fielmente a mulher histérica do século XIX, juntamente com a fotografia belíssima.

 

Augustine_2 soko

augustine_1 soko

 

todas as fotos são do iconographie photographique de la salpêtrière, paris, 1878. exceto as promos do filme augustine.

 

por kati ferreira