te alejas de los nombres
que hilan el silencio de las cosas
                         Alejandra Pizarnik

 

Um dia, eu estava caminhando pela orla e passava por uma etapa da minha vida em que jogava muito com os opostos, daí surgiu empalagarme de mar. Não se pode empaturrar de mar, se encher de mar, beber todo mar (…) Eu vivi sempre na costa e se nota uma influência muito grande. Você se sente muito influenciado pela água, somos água; estar ao lado da maior água que existe é deixar-se influenciar pelas marés. A maré varia segundo a lua, imagina a força, é espetacular ver a natureza exercendo seu poder sem nenhuma defesa, o mar está aí, você está aí sem proteção alguma…

 

Mariana Pacho López é fotógrafa marplatense radicada em Buenos Aires. Sua história com a fotografia começou em 2006 e vem se cristalizando ano após ano. É um dos trabalhos mais sensíveis e interessantes para se ver e acompanhar.

Aqui, reproduzo alguns trechos de nossa conversa, realizada em setembro deste ano no charmoso bairro de Coghlan, onde divide apartamento com outros artistas.

 

fotografias de mariana pacho lopez

Acompanhando o seu trabalho, é inevitável pensar que a mulher é seu assunto principal.
– É verdade, mulheres foram se aproximando de mim. A beleza da mulher é incrível, mas foi casualidade ter encontrado nas pessoas que fotografei algo meu, sentimentos. Poderiam ter sido homens também. Mas acredito que sim, a mulher é meu assunto principal, é a minha intimidade.

 

foto de moda Mariana Pacho Lopez

 

Inevitável também pensar na poesia feminina argentina, na sensibilidade feminina. Através de um mínimo interesse em literatura argentina, certamente você vai se deparar com nomes femininos importantes, principalmente na poesia, como Silvina Ocampo, Alfonsina Storni e Alejandra Pizarnik.

Esta última, foi de certa forma o eixo central da nossa conversa. Mariana é fã de Pizarnik, leu tudo, toda a sua obra, em um momento de sua vida no qual seu ambiente era “uma biblioteca e uma câmera”, justamente quando chegou a Buenos Aires para estudar na UBA o curso de Imagem e Som.

 

Quando comecei a fotografar, lia muito, não tinha computador, não tinha nada, só a biblioteca de uma amiga e uma câmera. Li todos os livros dela e tirava fotos.
Storni, que é de Mar del Plata, se suicidou no mar.

 

Uma vez me disseram que a diferença entre os fotógrafos argentinos e os fotógrafos de outros lados é que aqueles lêem muito.  E há, é certo, um quê de literatura em suas imagens, uma imagem não resolvida, misteriosa, como um instante etéreo na página 122, cujo desenlace não está indicado.



retrato de mariana pacho lopez por matheus chiaratti

 

Y el signo de su estar crea el corazón de la noche

 

Lendo Alejandra, tinha a impressão de que era uma pessoa muito frágil, isso se nota, ela te mostra, a letra, a escritura era como um labirinto para ela. Essa poesia que tanto perseguia talvez a tenha matado um pouco. Eu estava muito comprometida. Li tudo dela, vivia Alejandra… Me veio à tona uma sensação bastante escura, densa, mas também muito rica, era uma contradição muito louca, eu seguia, sentia que estava em uma linha tênue, chegava a um ponto da linha em que se segue ou consegue sair, dizendo, ‘basta, até aqui eu te acompanhei’, eu segui e cheguei a um estado muito parecido ao dela. É muito forte, muito forte. Minha vida era muito parecida ao que dizia. Muito.

 

O signo de seu estar cria o coração da noite. Estranho é descrever as fotografias de Mariana. Cada uma contém versos, cada uma distende a sua percepção da vida frente a um plano de cor e forma, mas não estático, pulsante; são momentos de contração, infusão. São mistérios irresolutos. Eu conheci a Mariana tão serena e tive a impressão de que Mariana não sai à caça da fotografia, ela simplesmente a agarra no ar, no instante.

Mariana materializa a fotografia como se fosse um quadro, também. É a execução do que já existe – não é reprodução, nem cópia de uma intimidade.
Às vezes há que deixar as coisas serem, para depois, ser as coisas.

 

Yo canto.
No es invocación.
Sólo nombres que regresan.

 

fotos de mares por matheus chiaratti

versos
Alejandra Pizarnik (1936-1972) em “Alejandra Pizarnik. Poesía Completa”
Edición a cargo de Ana Becciu. Buenos Aires: Editorial Lumen, 2011

 

fotografia por Mariana Pacho Lopez / Flickr
retratos e texto por Matheus Chiaratti