mariana t. k.

 

um começo
munidos de curiosidade pueril, os dedos procuram explorar as possibilidades de comunicação; tateiam a esmo à procura do outro.
cutucam, chacoalham, seguram, apertam, indagam, pedem, chamam, apontam, encostam, coçam, apóiam, (…).
há tempos meus dedos se acostumaram ao tato de uma página de papel.
folheiam automaticamente os livros, as revistas, os cadernos, os jornais, com ou sem interesse, passeando por entre lombadas e caligrafias, como se desse modo pudessem se sentir ainda mais próximos do outro, aquele que escreveu, ou que também leu, ou que simplesmente os folheou por folhear.
já tentaram tocar piano e violão, sem muito sucesso.
também se aventuraram em meio a máquinas de costura, mesmo que por pouco tempo.
em criança, certa vez se encantaram com uma antiga máquina de escrever.
havia também as brincadeiras, a época dos legos, do gato-mia, do pega-pega, do polícia-e-ladrão e do esconde-esconde.

mariana t. k.

 

um meio
meus dedos existem entre o meu querer e o meu fazer.
às vezes começam a digitar compulsivamente, apertando tecla após tecla, formando montes de palavreados sem sentido, cuspindo pensamentos e vontades, por pura familiaridade — às letras, aos tlec tlecs, à necessidade de me colocar do avesso só por alguns minutos, e tentar assim me reorganizar.
às vezes, eles percorrem freneticamente pedaços de papel recortados, nanquim, lápis e, quase sem querer, buscam concretizar aquilo que emerge do subconsciente, sujando-se ora de preto, ora de vermelho-sangue.
nesses momentos, surgem colagens ou envelopes, que sobrevivem se não forem para o lixo antes.
às vezes meus dedos apertam um botão para congelar um instante numa caixa de metal, e gostam de fazê-lo.
às vezes meus dedos gritam, estabanados, sem saber como se portar, esquecendo que são extensões do meu corpo.
dali, surgem bocas com dentes tortos, muitos escritos, olhos, metade de um rosto, linhas e tracejados.

 

mariana t. k.

 

um fim
às vezes meus dedos querem segurar o mundo, só pra saber como é.
eles entrelaçam-se entre si.
minhas mãos querem deixar impressões e marcas, querem conhecer, desconhecer e reconhecer.
buscam atingir algo, algo que está entre o tudo e o nada.
alcançar o tátil, mas também o intocável.
eis um fim.

 

por mariana t. k.