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noelle piasetzki natalia sanabria de mello

 

 

Uma vez perguntaram ao Picasso o significado de suas pinturas. Ele disse, ‘Você sabe o que os pássaros cantam? Você não sabe. Mas você os escuta mesmo assim.’ Então, às vezes com arte, o importante é apenas olhar.
Marina Abramović

 

 

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noelle piasetzki reside em curitiba, cursa belas artes e arquitetura e faz arte easy on the eye (“fácil para o olho”), mas “fácil” não deve fazer parte da interpretação de seus trabalhos. o belo e o sincronizado representam a orientação estética deles, mas sinto que o que mais se aproxima do que poderia ser uma reflexão justa é: meditação visual.

é como nosso respirar diário, pesado, que precisa de um belo amanhecer.

na entrevista ela fala da racionalidade da criação que leva a um desejo por organização mental e é uma análise interessante que reflete um pouco nossa existência urbana, os excessos.

em uma tarde de chá gelado, muito calor e um sol esperançoso (era pra ser uma tarde de tempestade), nós conseguimos registros que têm tudo a ver com a arte da noelle: delicados e orgânicos. as fotos ficaram tão lindas e naturais que houve pouquíssima edição e foi tanto material que dividimos tudo em duas partes. nesta primeira parte, me concentrei em apresentar a noelle para vocês. aqui ela debate mais seu processo criativo e de onde vem o seu “criar”. na segunda parte, ela fala de planos para o futuro e de artistas que admira.

 

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acervo noelle

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acervo noelle

 

há quanto tempo você desenha? o que mudou na sua relação com o “criar”?

Criar sempre esteve presente no meu meio, desde criança, inventar alguma coisa era o que eu mais gostava de fazer. Minha família sempre instigou muito minha criatividade também, eu me envolvia em oficinas de pintura e a aula de artes era a preferência na escola. Então, minha relação com o criar e com o desenho sempre foi muito familiar, muito próxima, e eu até arriscaria dizer comum. Com o tempo eu passei a me identificar mais com algumas áreas e técnicas dentro da arte e investir menos nas que eu não me dava tão bem, mas nunca negando a existência e influência delas. Há pouco tempo eu consegui estabelecer meu estilo artístico atual e dentro dele também houve sua própria evolução, nas questões compositivas, escolha de cores e preenchimento de espaço. Eu me sinto cada vez mais íntima e conectada com o meu trabalho e isso me confere uma liberdade e conforto muito grande pra criar, ao contrário dos meus primeiros desenhos mais profissionais, em que é nítida minha pouca administração das técnicas.

 

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eu sempre tenho muita vontade de escrever quando estou presa em algum conflito emocional, é quando escrevo melhor e espontaneamente. qual é o sentimento que te faz querer criar?

Meu sentimento de dissolver meus conflitos com os meus desenhos sempre foram constantes. Eu consigo notar isso nos meus trabalhos iniciais, principalmente por eles serem muito nostálgicos, eles sempre me remetem a alguma “fase” e necessidade de me identificar, de me assegurar. É como se o momento da composição dos desenhos fosse como um processo de organização mental, no qual eu vou sintetizando todas as informações emocionais e psicológicas, mas de uma forma muito sutil. Essa organização mental também não é uma regra a todos os processos criativos, visto que alguns desses processos também surgem de momentos de ócio, em que eu necessite de certa bagunça mental de ideias. Harmonizar e deixar essas ideias no plano do visível é o que me move. Eu sou muito apegada aos meus primeiros trabalhos por isso, é como se eles dissessem muito de mim e do meu processo de amadurecimento. Constante desabafo mental.

 

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o inconsciente é a grande voz de tudo que fazemos. você tenta trabalhar ele na sua criação, analisar de uma forma mais profunda o que aquela arte significa pra você? ou você só lança no mundo, sem questionar?

É engraçado, porque às vezes eu só percebo o significado dos desenhos algum tempo depois que eles estão finalizados… como se eu retornasse ao meu sentimento do momento de criação, mas nem percebesse esse sentimento de fato durante a própria criação. Eu vejo meu estilo artístico como minha vida, como eu me disponho, como eu me situo, como eu reajo, algo que busca sempre uma organização, mas de certo modo está sempre muito saturado, muito cheio de informação, mas também muito sutil, nada que se imponha muito aos olhos, algo que necessite de várias análises pra se perceber tudo. Assim eu sinto que meu cérebro funciona, inclusive meu inconsciente. Eu consigo notar muita racionalidade no meu trabalho e no momento da criação, muito mais do que a emoção e dramaticidade artística. A simetria pra mim é o grande símbolo da racionalidade dentro das minhas produções.

 

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depois de criar, que é sempre a parte divertida, qual é a parte mais difícil em compartilhar ou debater sua arte?

Eu achava muito difícil explicar os meus desenhos, de onde eles surgiram e no que eles são inspirados, principalmente por eles serem muito pessoais. Há pouco tempo eu passei por uma experiência muito divertida, que foi a exposição dos meus trabalhos em um café. Divertida porque eu consegui alcançar o que eu nunca tinha conseguido de fato, uma explicação espontânea e de certa forma cronológica do desenvolvimento das obras, e foi espontânea mesmo. Sinceramente, eu não tinha montado nenhum discurso de mediação e estava totalmente perdida sobre o que eu iria comentar com o pessoal que iria visitar a exposição. E só aconteceu, com a mesma espontaneidade com que eles foram feitos, eu consegui conectar a criação de cada um com o seu momento e consegui descrever as suas influencias. Algumas coisas eu ainda considero muito difíceis de explicar, principalmente quando se trata de inspirações, pois eles não tem um repertorio criativo especial, são frutos da minha confusão mental, sem um grande apego em muitas obras e artistas. Costumo usar muito minha memória fotográfica, acho que ela é a grande precursora em armazenar certas peculiaridades que eu encontro por aí.  Eu tenho alguns elementos em que sou apegada, como a temática das mandalas, botânica, doodles e os relicários. Outra definição que eu não consigo me encaixar é a intensa e profunda dramaticidade com que alguns artistas descrevem suas obras e seus processos criativos. Pra mim é algo extremamente natural e que está sempre comigo, não consigo definir o exato momento do processo criativo, porque ele está constantemente acontecendo, sem limitações ou grandes momentos de criatividade. Meu grande impasse envolvendo sentimentos é a capacidade de desapegar das obras, acho difícil imaginar algum dos desenhos que pra mim são de extrema importância sendo diretamente comercializados.

 

links
instagram
tumblr

 

fotos por noelle piasetzki e natalia mello
produção por noelle piasetzki e natalia mello
retratos por natalia mello
entrevista por natalia mello

 

parte #2 da entrevista aqui.