minha relação com o desenho foi sempre assim, de amor+ódio, de amoródio, de ódiamor.

me lembro de rostos sorridentes dizendo que deveria ser desenhista quando crescesse, de ter meu caderno tirado das minhas mãos e percorrendo a classe inteira, me fazendo me encolher de vergonha. também de copiar desenhos, sobretudo os que via na televisão ou de desenhos bonitos que via em revistas e livros. letras eram desenhos. números eram desenhos. eu nunca quis ser desenhista mas sempre quis a intimidade com o desenho. queria, sobretudo, que o desenho partisse de mim, para o universo, e vice-versa, como um recado trocado, uma forma de comunicação.

 

arte de mariana t.k.


e nessa não conversa comigo mesma e com meus desenhos, eu acabava num monólogo infinito. do tipo “somos todos palimpsestos de nós mesmos”, cópia atrás de cópia, como devo ter lido em algum lugar. sempre querendo a leveza de estar sentada esperando alguém e pegar um caderno na bolsa e sair rabiscando, sem pensar muito. de desenhar no metrô, no trem, no ônibus, na rua, enquanto vejo alguma outra coisa, etc. por essa “barreira” que acabo criando entre mim e minha “forma de desenhar” (entendendo aqui o ato de desenhar como um gesto, uma coisa física, mas também reflexiva, que parte de uma necessidade de expressão, seja lá do que for, o que, claro, não é a única coisa que o desenhar permite), me dou melhor observando: posso passar horas e horas vendo portfólios, blogs, processos de feitura de livros, tumblrs, ilustrações, enfim (…).

 

hyper arte de mariana t.k.

 

seilas arte de mariana t.k.

 

e, convenhamos, existem muitos jeitos de se desenhar. você pode desenhar sem usar instrumento nenhum, por exemplo. pode desenhar de olhos fechados. desenhar só com os olhos. ou não?
tá, pode ser mais uma das minhas desculpas esfarrapadas.
(meu não-desenhar-querendo-muito-desenhar é uma das minhas bolhas de zona de conforto, afinal. sempre foi.)

 

arte de mariana t.k.

 

por mariana t. k.
olho–roxo / mtk