matheus chiaratti

 

O particípio e o princípio, a noite farta, o desejo incerto, pensado e infame, quer se transformar num meio de ocupar a minha mente como em um filme sci-fi.

Ele entrou no pátio do Edifício Martinelli ocupando o espaço ligeiramente como uma formiga faminta, se apossou das janelas reflexivas, olhou para si e olhou para cima, apertou o passo uma vez mais para ver tudo o que podia ver num segundo para depois descansar e aproveitar o vento, se ocupar do vento. Rasteiros pensamentos voavam com grandeza, pensava na cidade como é grande e sozinha, pensava no amor como é grande e sozinho, pensava no seu apartamento pequeno e sozinho, pensava sozinho no vento que barulho tinha e resvalava sobre o tecido da roupa, sobre o céu. Se fosse para sair dali, sairia voando, eu não tenho o menor medo da vida, mas às vezes ela me encara com cara de búfalo, encarnando na solidão alguns fantasmas felizes que preenchem o espaço, expõem o medo e o receio, repartem como faca legume o que sou, dois, três e às vezes quatro, sementes pelo chão caídas e secando. De novo, se fosse para ser um encanto eu seria um pássaro que percorre tudo sem se cansar, buscando no ponto mais alto, o mais baixo ponto de você para então depois ressurgir como um foguete. O pátio ocupa todo meu pensamento e nele passam pessoas carregando suas cadeiras para lá e para cá, querem se estirar sob o sol e permanecer, eu sei que às vezes a palavra permanecer poderia significar mentira, mas eu a uso com toda força do pensamento para deixar ficar quem logo se vai quando chega uma noite do verão, sem jardim, sem flor, sem cheiro de dama-da-noite, nada. Ocupou o pátio do Edifício Martinelli depois de ter recorrido o corredor de lustres antigos, raios do tempo sobre as cabeças e chapéus de senhoras numa cidade outra que permanece por debaixo, Pompeia viva. Os detalhes daquela manhã estão esmaecidos, ouvi dizer, não relatou a ninguém.

 

texto e foto por Matheus Chiaratti