sabrina gevaerd

 

sabrina gevaerd mora em brusque, santa catarina, começou a trabalhar com design em 2010, mas com o autoral só em 2015. assim que o trabalho dela apareceu pra mim por redes sociais, não pude deixar de me apaixonar pelas mulheres de seus desenhos, sempre tão livres sexualmente, envoltas em uma aura colorida & florida de prazer e sisterhood.

aqui a sabrina fala um pouco sobre a proposta de sua arte e da cena artística para mulheres. achei super legal a parte em que ela fala da coragem necessária na busca em sermos quem realmente somos. o caminho para mantermos um diálogo aberto e interessante entre mulheres é buscarmos respostas dentro da nossa própria comunidade, apoiar e divulgar nossa local girl gang é descobrir sim, mais sobre nós mesmas. é essencial!

 

sabrina gevaerd

 

quais diálogos pertinentes você gostaria que seu trabalho abrisse sobre a mulher?

Procuro partir de um ponto de criação o mais distante possível da male gaze, aquele conceito criado pela Laura Mulvey que apresenta as artes visuais estruturadas em volta do espectador masculino — eu inclusive acho isso bem claro na publicidade e em quase todas as imagens que absorvemos durante qualquer dia. Minha tentativa é mostrar então a nudez, a suavidade, a força e o erotismo na sua natureza mais expurgada do olhar do outro. É naturalizada, basta-se em si. Um olhar não voyeuristico, mas uma imagem consentida de uma fantasia.
Procuro criar esse espaço seguro.

 

sabrina gevaerd

primeiro zine independente “nem todo mundo gosta de viver” da sabrina

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flores estão sempre acompanhando suas heroínas. o que você acha que atrai a nossa geração
na admiração crescente que temos por folhagens e flores?

Não vejo esse aspecto como geracional. Acho que a diferença é o jeito de representar a natureza, claro, mas a gente inventa a paisagem na arte desde o renascimento como um cenário de narrativa. Estar perto das flores e folhagens é, também, um lembrete da nossa humanidade. Minha representação tem muito a ver com o viés naturalista do meu trabalho e a questão biográfica: eu cresci rodeada pela natureza e voltei a morar no interior depois de alguns anos em Curitiba.

 

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você fez uma ilustração para o site da lena dunham, o lenny letter,
do qual sou muito fã. que ícones femininos atuais te inspiram?

Esse convite se iniciou pelo twitter, eu acho que fiquei 4 dias sorrindo sem parar, até por que fiz um retrato da Mary Katrantzou, de quem sou muito fã.
Tenho uma miríade de mulheres cujo trabalho me inspiram, seja na literatura, nas artes visuais, no cinema, na musica (vivo por uma playlist girlpower), mas acho que a maior inspiração vem das mulheres da minha vida, minhas amigas, mentoras, minha mãe, as muitas mulheres que vejo tecendo suas vidas e inspirando mudanças positivas em torno de si.

 

sabrina gevaerd

 

você acha que tem uma abertura legal para artistas mulheres na cena brasileira?
ou você ainda sente censura?

A gente tem presenciado uma certa mudança de paradigma, e creio que fazemos parte dessa diferença. A cena faz parte de um contexto social maior e complexo. Dentro do meio artístico eu não tive grandes entraves, mas a minha vivência tem sido um pouco ímpar. Quantas mulheres artistas tu encontras em museus e quantos são homens? A grande diferença na minha experiência foi ter sido criada cercada por arte-educação desde criança, o que resultou em apoio e segurança quando resolvi buscar esse caminho para mim.

 

sabrina gevaerd



qual foi a maior lição que você aprendeu nos últimos anos? 

2015 foi o meu ano do pensamento mágico. Eu sempre quis que o desenho fosse meu ofício mas nunca me achei capaz. E sempre que eu digo é desde que eu tinha 5, 6 anos. Porém, é meio assustador tomar posse das nossas vontades. É assustador a ideia de que possa dar errado, a princípio. Deixa-la platônica é confortável, ela vive nas idéias e nunca dá errado.
Eu trabalhei alguns anos com outras áreas de criação mas sem colocar minha cara, meu jeito. A gente se molda às situações pra não expor o coração. Até que um dia tudo transbordou, comecei a expurgar tudo que havia guardado e não parei mais de desenhar. Finalmente aprendi a me aceitar, sem análises comparativas. Eu acho que a gente é um eterno trabalho em construção, mas esse conceito me deixava apreensiva, não queria ser vista antes de polir bem as extremidades. Agora acho que o interessante é crescer com a cara no mundo.

 

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que práticas ou rituais pessoais fazem você se sentir melhor depois de um dia bad?

Viver com um trabalho tão pessoal me deixa bem à flor da pele. Meu melhor conselho é: se enrole com um gato! Eu tenho 3 gatinhos, o bioy, a fafu e o jalão, que são cura pra todos os males (menos rinite). Também direciono muito dessa energia pro desenho, me ajuda a trocar o estado mental. Desenhar pra mim é um momento meditativo e contemplativo.

 

sabrina gevaerd

 

quais projetos/planos você tem para o futuro? 

Continuar a viver as descobertas do ano passado! Tem sido mágico viver desenhando.

 

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conte uma curiosidade sobre você. 

Apesar de ter carteira de motorista, eu não sei dirigir. Eu sei, mas sou péssima. A última vez que tentei quebrei duas portas do carro e um portão, o que me levou a ser uma ciclista! Faço quase tudo pedalando. E, por causa disso, já sofri um acidente que envolvia um ônibus biarticulado, que bateu em mim, num primeiro de abril. Pouca gente acreditou. Eu fui pro hospital com contusões na cabeça, no joelho e escoriações, mas nada extremamente grave.

 

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todas as ilustrações/fotos são de autoria da sabrina gevaerd.

por natalia mello