o autorretrato não é um fenômeno exclusivo do iphone, e não só revela a face e o físico mas também o íntimo do autor. é um reflexo do tempo em que ele vive, da situação e do humor em que ele se encontra, mesmo que no processo a intenção não seja revelar, e sim, só “expor”.
este não é um texto necessariamente feminista (embora eu seja profundamente interessada no assunto), é sobre a história da mulher na fotografia e, como esperado, o tema gera contradições. é um estudo sobre selfie, porque vi o assunto como mais uma prova de que a arte sempre dança com o narcisismo e está sempre à beira de ser julgada somente como tal mas é s e m p r e muito mais.

 

 (todas as imagens estão em HQ, é só clicar nelas para visualizar)

lena dunham texto por natalia mello

lena dunham tirando uma selfie na limousine antes de chegar no globo de ouro de 2014


retratadas limitadamente pelo olhar de artistas masculinos desde o renascentismo, as mulheres nos anos 1920 começaram a se fotografar na busca por uma nova identidade e liberdade de expressão. procuravam uma imagem que condissesse mais com os novos tempos e com a sua cada vez maior independência. tudo isso é fruto do ambiente pós-guerra e a consequente perda de alguns valores morais da sociedade do século 19. o fato de que câmeras mais leves estavam sendo comercializadas (rollei, leica) também ajudou, porque isso permitia mais privacidade.

 

sylvia von harden texto por natalia mello

retrato da jornalista sylvia von harden por otto dix, 1926

autorretrato de sylvia von harden texto por natalia mello

sylvia von harden, autorretrato

claude cahun texto por natalia mello

claude cahun, autorretrato, 1919

Florence Henri, Autoportrait au miroir, 1930 texto por natalia mello

florence henri, autorretrato no espelho, 1930

Ilse_Bing_self_portrait_1931 texto por natalia mello

ilse bing “the queen of leica”, usando a primeira leica 35mm, 1931

lee miller por man ray texto por natalia mello

lee miller por man ray

lee miller por man ray texto por natalia mello

lee miller por man ray

 

sou muito fã do man ray e mais ainda da lee miller, fotógrafa talentosa e personalidade importante no movimento surrealista. ninguém sabia posar tão belamente quanto ela! sempre presente nos meus moodboards, adoro descobrir novas fotos da parceria dos dois.

usando a lee como exemplo, as mulheres sem dúvida participaram tanto quanto os homens no nascimento da fotografia moderna, embora poucos historiadores reconheçam.

 

 “Until two decades ago, modernism in photography was considered to be the achievement of male photographers alone. Although the names of female photographers crop up here and there in classic works on the history of photography, the leading roles in the revolutionization of form and function in the photography of the 1920s were ascribed exclusively to men. Even Michel Frizot’s ‘The New History of Photography’ of 1994, a work which counters the stereotyped notions of photography’s historical development with a multitude of new perspectives, has remained true to this tradition.” (fonte)

 

críticos dizem que “buscar por uma identidade” também era o que francesca woodman fazia ao se fotografar  — quase sempre nua , mas buscar é muito diferente de explorar. talvez por ter começado a tirar fotos muito nova (13 anos), seja fácil e de hábito a imprensa achar que sua “imaturidade” poderia influenciar nas suas obras. 
nem sempre se tornar seu maior objeto de estudo é estar em busca de algo. uma grande artista do autorretrato é a frida kahlo, com uma certeza absurda de quem ela era que beirava a obsessão. mas homens têm sido obcecados desde sempre pelo visual de mulheres que não refletem a realidade, por que é errado uma mulher se apropriar de sua imagem e usá-la, analisá-la?

 

“The self-portrait is an artist’s most intriguing vehicle for analysis and self-expression.” (fonte)

 

fiz um texto sobre a francesca woodman, mas a foto a seguir não saiu na publicação. achei que não combinava com o foco que eu queria dar, mas aqui é uma obra importante. esta foto foi tirada depois do enterro de sua avó e é a francesca ao lado de porta retratos dos avós. o visual é mórbido e fantasmagórico, mas romântico.
um poderoso self-portrait sobre a mortalidade.

 

Untitled 1975-80 by Francesca Woodman 1958-1981 texto por natalia mello

untitled por francesca woodman, 1975-80

The Frame, 1938 frida kahlo texto por natalia mello

the frame, 1938, autorretrato da frida kahlo

 

“(…) Even in 2009 there was something a little embarrassing about admitting you did self-portraiture. It was as if your work wasn’t serious enough, or you were a narcissist and self-obsessed. As women, are we only interesting to look at if someone else takes our photographs for us?” (fonte)

 

stanley kubrick texto por natalia mello

stanley kubrick fotografando uma show girl

jane andrew birkin texto por natalia mello

jane birkin fotografada pelo irmão, andrew birkin

Ingrid Bergman Yul Brynner texto por natalia mello

ingrid bergman por yul brynner

edouard boubat e lella, 1951 ou 1952 texto por natalia mello

edouard boubat e lella, 1951 ou 1952

 

“It used to be embarrassing to stage your own portrait, an implicit acknowledgement that you had no one there to take it for you or no one interested enough in taking your picture, but that self-consciousness has disappeared. It has been replaced by the self-confidence that selfies require.
We cherish the possibility that someone, anyone, might see us. If photographs possess reality in their pixels, then selfies allow us to possess ourselves: to stage identities and personas. There is the sense that getting the self-portrait just right will right our own identity: if I appear happy, then I must be happy; if I appear intellectual, then I must be an intellectual; if I appear beautiful, then I must be beautiful. Staging the right image becomes the mechanism for achieving that desired identity. The right self-portrait directs others to see us the way we desire to be seen.” (fonte)

 

o que artistas incríveis têm a ver com meninas postando fotos de si mesmas no instagram e no facebook? tudo. é análise e retratação dos tempos atuais; é como elas se veem, como o mundo as trata, como o mundo as vê. há busca por identidade ou procura por status? quem sabe? também pode ser só uma celebração, “me achei bonita assim”. por que não? as intenções são ambíguas. se antes as mulheres tiravam fotos sem saber se as mesmas seriam vistas — e isso as possibilitava uma composição menos afetada e tendenciosa , hoje há uma garantia de exposição máxima e rápida.

 

Angelina Jolie Self-portraits with a Hasselblad texto por natalia mello

angelina jolie com uma hasselblad para a marie claire US, janeiro 2012

astrid kirchherr texto por natalia mello

astrid kirchherr, autorretrato em seu apartamento, hamburgo, 1960

 

a foto a seguir é uma peça muito interessante e diz muito sobre comportamento com retratos e câmeras. george harrison, um jovem espinhento e ainda tentando entender a repentina fama, sozinho no quarto de hotel com uma de suas inseparáveis câmeras. mas por que ele sempre carregava uma? para documentar e lembrar, sim, mas também não é o que o torna quite com os paparazzi? e isso não lhe permitia se apropriar da imagem que estavam fazendo dele e estampavam radicalmente nos jornais?
adoro esta foto e amo os autorretratos que ele fez na índia em 1966 com uma lente fisheye.

 

george harrison texto por natalia mello

george harrison, autorretrato no hotel, turnê com os beatles, 1964

 

vivian maier possuía desconhecidamente um acervo enorme de negativos e acabou conquistando uma fama de fotógrafa, após sua morte. o talento dela é indiscutível e uma de suas marcas registradas é a genialidade ao criar um autorretrato (link aqui e aqui).

 

vivian maier texto por natalia mello

vivian maier, autorretrato

vivian maier texto por natalia mello

vivian maier, autorretrato

vivian maier texto por natalia mello

vivian maier, autorretrato

 

“Self-portraiture is one aspect of a larger project to manage our reputations.” (fonte)

 

se autorretratos também têm a ver com reputação, a atual pauta sobre meninas sendo expostas sexualmente de forma desonesta entra em cena. mas quem pode controlar a repercussão se o caso é esse? contradição dos tempos de internet e reality shows: a curiosidade pela intimidade dos outros vs. um pensamento bastante opressor e ultrapassado. por isso o selfie continua sendo uma ferramenta libertadora. diferente da captação de imagem sem consentimento, é a mulher decidindo como quer ser vista e ponto final.

 

Helmut Newton, Self-portrait with model, Hotel Bijou, Paris, 1973 texto por natalia mello

helmut newton, autorretrato com modelo no hotel bijou, paris, 1973

a-self-portrait-taken-by-Marianne-Breslauer texto por natalia mello

marianne breslauer, self-portrait, 1933

 

“Nan Goldin’s self-portrait became iconic because it defied the conventions of the genre. She conformed to the expectation that a female subject should be decorated with makeup and adorned with jewelry, but refused to disguise her injuries. While we expect such injury to be documented by others—the police or the newspapers—Goldin’s self-documentation was courageous.
That courage is precisely what is lacking in so much of the self-portraiture circulating today. While we are eager to catalog the places we have been and the experiences we have had, we rarely offer documentation of the selves we are.
It is difficult to be shy in the digital age, but impossible to be honest.” (fonte)

 

nan goldin texto por natalia mello

nan goldin, autorretrato “one month after being battered”, 1984

diane-arbus.-self-portrait-pregnant-nyc-1945 texto por natalia mello

diane arbus, autorretrato em nova york, 1945

 

o selfie é por tudo isso igualmente belo e complicado, mas o que não é? somente pela fraqueza humana é possível fazer uma análise honesta sobre o tempo em que se vive.

 

“For me, probably the saddest and most haunting photograph in this collection is the self-portrait she took in 1997, not long before she died in 1998, in Francis Bacon’s studio in South Kensington. Linda (McCartney) was a great art lover. She had studied art at college in Arizona and her father had a phenomenal collection. So she’d grown up with great art. She admired Francis Bacon greatly and had an opportunity through a friend to photograph his studio after he died. We knew the people who looked after his studio. It was going – the entire contents – to Dublin. She went along and took some pictures. This one is a classic. With the cracked mirror it’s particularly eerie. It is a very strange but powerful picture. I’m not sure, but that looks like somebody’s death mask on the right of the picture.”
Paul McCartney (fonte)

 

linda mccartney texto por natalia mello

linda mccartney, autorretrato no estúdio do francis bacon, 1997

 

por natalia mello