serão cadáveres, essas palavras que insisto em cuspir pra cima? me despir. me vestir de acordo comigo e meu umbigo.

 

arte de gerhard richter


 

ontem fiquei com dores nas costas e muito calor enquanto rabiscava, desenhava e tentava pintar, fazia colagens, tudo com cadernos antigos. pensei que não queria mais. disse “adeus, adeus, adeus”, você não é eu. não queria mais aquelas palavras eternizadas, imortais como estavam. we walk through the fire de novo e de novo. agora, de algum modo, me escondi nesse jeito babaca de tentar sorrir.

 

arte de gerhard richter

 

eu quero me comunicar, por favor. não subestimar (nenhum tipo de) amor, nem desamor. eu já sabia, quando escrevi, há mais de um ano, desapegar das coisas mundanas, ou melhor, se apegar o máximo possível enquanto elas são suas e estão com você, e saber se desapegar quando for a hora.? é de vestir o inverso, agora. de raio-x, sabe? é preciso saber morrer, também, não é isso? pelo menos eu agradeço. sinto saudades ensolaradas e agradeço.

 

gerhard richter

 

tenho tanto medo que não me deixo. não. eu procuro a faísca. aquele pedacinho de fogo (im)possível. não são as roupas, não são somente as cascas. estou começando – finalmente, devo dizer – a aprender que nada é definitivo, apesar da obviedade. escrever é meu jeito de ser real? sim? não? sim. não! sim? sou tão obcecada comigo mesma. é assim, despenteada e de pijama, que sinto mais próxima de mim mesma. as palavras não me satisfazem hoje. aliás, ando achando-as limitadoras demais. queria falar, e falar, e me expressar inteiramente, mas sou toda pedaços, sou toda cacos, quebradiça, movediça, sou areia, sou grãos. você (eu) sopra, e sopra, e eu (você) continuo rodando. o redemoinho, que agora também é meu.

 

gr04

 

eu já vou sair daqui. sair de mim. não, sobretudo quero entra(nha)r em mim. mim eu. eumim. assim, tudo junto. sem ilhas, sem peixes. tantos rios internos; eu não consigo nadar. queria nadar pelada numa piscina, à noite. cresce logo, cabelo. i wanna see you come back as the light, i wanna see you be the bright night sky – talvez eu já tenha escrito tudo isso. escrever “sou um palimpsesto de mim mesma” seria dramático demais? todo mundo é assim. eu quero é me fazer caber nesse mundo. pra quê tanta previsibilidade, me pergunto. traduzir essas coisas todas em palavras que se desmancham não dá. queria era traduzir em desenhos, pinturas, imagens, corpos que se movem, sons.

 

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A pele da jibóia

sonhei com cobras, e tanta coisa
sinuosa e confusa

de manhã fui comprar cigarro
manhãzinha dissipa pesadelo
de manhã é outra pele
não a viscosa da noite

escamas de sol

trocar de pele
é coisa boa
entre as árvores
ficou a velha casca

 

créditos
overpainted photographs, de gerhard richter,
& a pele da jibóia, do livro quase uma arte, de paula glenadel

 

por mariana t. k.
olho–roxo / mtk