* a frase que dá título ao post é de autoria da margaret atwood

 

sofia soter

arquivo pessoal

sofia soter

arquivo pessoal

 

quando soube que estava para nascer uma revista online voltada ao público adolescente, lembro de ter comentado algo como “que ideia linda! meu ‘eu adolescente’ teria surtado com isso anos atrás, mas meu ‘eu adolescente interior’ está achando maravilhoso”. assim que saiu a primeira edição da revista capitolina, tudo que consegui fazer foi balançar a cabeça em um exagerado “SIM!!!!”, e assim tem sido desde então. com colaboradoras de variadas cidades, gostos e idades, a capitolina tem sido um abraço apertado pra quem, como eu, passou a adolescência seguindo dicas sobre como ser conquistada (e não o contrário, óbvio que não), ficar bonita (porque você não é) e abobrinhas afins. até hoje lembro claramente de uma delas, endereçada aos meninos (!): “nunca diga a ela que ela é bonita, e sim que ela está. assim, ela vê que é preciso um esforço para estar sempre bela” (um minuto de silêncio por todo esse tempo desperdiçado).

a capitolina inaugurou um espaço amigável para reflexões sobre os mais diversos assuntos, agrupados em temas mensais, e vem crescendo cada vez mais. uma das responsáveis por tudo isso é a sofia soter, editora geral da revista, carioca, fazedora-de-múltiplas-coisas-lindas-ao-mesmo-tempo, que sempre me inspira. resolvi entrevistá-la usando como base para as “perguntas” (foram mais tópicos) o álbum mais recente da taylor swift, 1989; porque ela gosta, porque eu tava ouvindo no dia, porque sim:

mudança

 

Tentei responder esta entrevista várias vezes, mas era só parar por um dia e voltar que as coisas já tinham mudado e eu queria responder tudo de novo. Acho que isso já explica o quanto minha vida está mudando ultimamente, né? É engraçado porque, quando criança, eu tinha pavor a mudança – chorei quando pintaram meu prédio de amarelo, chorei quando minha avó mudou a decoração da casa dela, chorei com tudo que mudava ao meu redor sem que fosse sob meu controle. Provavelmente é tudo mesmo minha natureza um pouco control freak, que me faz detestar surpresas também, mas é impressionante eu estar não só aguentando, como gostando, das mudanças que têm acontecido. Se comparo minha vida hoje com minha vida há três anos, a diferença é inacreditável: saí de um relacionamento abusivo, comecei um relacionamento baseado em apoio e confiança, comecei a me tratar para depressão e ansiedade, comecei a cuidar do meu corpo ao invés de maltratá-lo, me formei na faculdade, comecei a Capitolina, e no momento todos esses fatores que foram me encaminhando para onde estou agora estão de certa forma culminando em tomadas de decisões fomentadas por sucesso e independência e realização. Está sendo estranho, mas está sendo maravilhoso também.

 

sofia soter

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“love is a game”?

Passei a adolescência toda achando que sim, e culpo em parte o fato de que, em tudo quanto é mídia para adolescente, ensinam pra gente que amor = jogo, e o que o objetivo é competir e vencer. Hoje em dia, me dou conta de que relacionamentos são feitos para construir, não destruir, que, se são um jogo, são um daqueles jogos que servem para fortalecer equipes e união e em que ninguém ganha e todo mundo sai, pelo menos, com uma medalha de honra. Curiosamente, ainda amo demais lovegames na ficção (ex: “Blank Space” música maravilhosa, Gossip Girl provavelmente minha série favorita) – só aprendi a apreciá-los como recursos narrativos, e não como algo a que devo aspirar na minha vida real.

método pessoal de superação

Tudo depende do grau de intensidade do que deve ser superado, mas recursos que me ajudam: muita terapia, remédios quando necessário, ativar toda minha rede de apoio familiar/de amizades, cuddling com pessoas que eu amo, maratonas de Gossip Girl (especialmente as duas primeiras temporadas) e de Buffy (estranhamente, da sexta temporada, para chorar com “Once More With Feeling”), exercício físico, álbuns inteiros no repeat (recomendo “Room on fire” dos Strokes, “Favourite Worst Nightmare” dos Arctic Monkeys, “1989” e “Red” da Taylor Swift, “Midnight Memories” do One Direction, qualquer coisa de Death Cab For Cutie, The National e Stars), o mashup de “Bittersweet Symphony” e “Dirt Off Your Shoulder”, chorar muito e muito e muito, sorvete, tirar selfies à beça e postar no Instagram, ler o blog da Gala Darling, escrever num caderno até a mão doer, mandar e-mails em crise profunda para as amigas, fazer biscoitos com minha irmã, comprar roupa/maquiagem/livros quando as coisas começarem a melhorar.

 

 

uma foto que você nunca tirou

Muitas! Sou péssima fotógrafa (queria demais ser melhor, mas não sou uma pessoa de muito talento artístico visual), e frequentemente vejo/sinto coisas que eu gostaria de capturar em imagem mas não sou capaz (ou fico com preguiça na hora, honestamente). Imagens/sensações que entram nessa categoria: a rua quando é o meio da madrugada e você está voltando de algum lugar onde se divertiu e a maquiagem já está derretida e seus pés com bolhas e você está ouvindo música e a cidade parece estar num estado de suspensão; meu cabelo quando acordo achando ele bonito, mas nunca fica suficientemente bonito nas fotos; a diferença que você sente no seu corpo depois de fazer exercício mas que não é visível pra ninguém além de você; o jeito que Paris é iluminada quando eu estou lá, que nunca nunca nunca se traduz em fotos, porque acho que é só um truque dos meus olhos/do meu cérebro.

a última vez que você disse adeus

Sabe que eu não sei? Tenho um adeus prestes a acontecer, mas não estou podendo revelá-lo em público ainda (não se preocupe, é coisa boa). Mas acho que faz tempo que não dou adeus, e os que me vêm à cabeça (tanto os bons quanto os ruins) fazem anos… Me formei na faculdade, conta? Foi um adeus bom, mas não senti como um adeus, só como liberdade. Acho que ultimamente tenho me despedido muito mais de sensações e questões internas do que de fato coisas ou pessoas – tenho me despedido de dores antigas e de pressões, tenho tentado me despedir de formas de ver o mundo que me atrapalham mais do que ajudam.

algo que se passa pela sua cabeça neste exato momento

1. Que bom que amanhã é feriado, que bom que estou prestes a resolver coisas que estavam me angustiando, que bom que domingo vou ver meus priminhos fofos que moram em São Paulo mas estão aqui pra Páscoa; 2. Acho que eu devia almoçar porque já tá na hora mas acordei tarde, tô meio enjoada e tomei um suco/vitamina que vai me encher por horas; 3. Todo mundo que ler essa entrevista vai me achar muito sem graça, hahahaha.

 

arquivo pessoal 2

arquivo pessoal

autor desconhecido

 

assuntos recorrentes/favoritos

Gênero, feminismo, garotas adolescentes e tudo que diz respeito ao universo da adolescência, fluidez linguística, identidades queer em diversos aspectos, batom vermelho & salto alto & saia curta e apresentação estética hiperfeminina, apresentação estética como performance, cidades abandonadas e cidades em movimento e cidades como pessoas e pessoas como cidades, narrativas sobre mulheres manipuladoras/cruéis/assassinas, Taylor Swift, livros e livros e livros (especialmente The Secret History e tudo do Daniel Handler e do Neil Gaiman), séries e séries e séries (especialmente Gossip Girl, Pretty Little Liars, Buffy The Vampire Slayer, e no momento uma onda de amor profunda por Justified), filmes e filmes e filmes (especialmente os favoritos da adolescência, ex: The Dreamers e Almost Famous) virtual +/x real, saúde mental, análises exageradas de tudo quanto é elemento da cultura pop, amizades românticas e poliamor e formas de amar e se relacionar que ultrapassam o tradicional esperado monogâmico heteronormativo afetivo-sexual.

coisas/pessoas que habitam seus “wildest dreams”

Estranhamente estou num momento em que meus wildest dreams – no sentido de coisas que eu desejo/espero em nível bem exagerado/best-case scenario – parecem razoavelmente atingíveis, então dá até um medinho de falar. Meus wildest dreams envolvem Paris e New York (sou previsível, tô sabendo), um império midiático-editorial, um armário inteiro de Valentino, Kate Spade e Louboutin, as pessoas que eu amo ao meu redor, me livrar da insônia (o que parece a possibilidade mais distante no momento), a Capitolina dominando o mundo, uma megalomania quase constrangedora. Pois é, acho que meus wildest dreams são muito egoístas (mas, se a Capitolina dominar o mundo, é sinal de que os valores da Capitolina estão difundidos e portanto o mundo é composto de mais gente feminista, empática, que luta contra injustiças, então, bem).

 

The Doom Generation

“the doom generation”

 

o que te diz/mostra que “everything is ok”

Vide: métodos de superação. Mas, mais especificamente: minhas redes de apoio (família/amigos/relacionamento); ver minha irmã e o quão maravilhosa ela é (sou uma irmã mais velha super coruja), e a esperança que isso me dá para o mundo; o feedback positivo que recebo pelo meu trabalho; as coisas maravilhosas que a internet pode proporcionar.

inspiração

Personagens/pessoas mulheres jovens perfeccionistas, type A workaholics, ex: Taylor Swift (já falei dela umas 3 vezes nessa entrevista, né?), Blair Waldorf (idem, acho), Tavi Gevinson. Minhas coeditoras maravilhosas da Capitolina, Clara Browne & Lorena Piñeiro. Poesia – particularmente:

 

Helen of Troy Does Countertop Dancing
Margaret Atwood, 1939

The world is full of women
who’d tell me I should be ashamed of myself
if they had the chance. Quit dancing.
Get some self-respect
and a day job.
Right. And minimum wage,
and varicose veins, just standing
in one place for eight hours
behind a glass counter
bundled up to the neck, instead of
naked as a meat sandwich.
Selling gloves, or something.
Instead of what I do sell.
You have to have talent
to peddle a thing so nebulous
and without material form.
Exploited, they’d say. Yes, any way
you cut it, but I’ve a choice
of how, and I’ll take the money.

I do give value.
Like preachers, I sell vision,
like perfume ads, desire
or its facsimile. Like jokes
or war, it’s all in the timing.
I sell men back their worse suspicions:
that everything’s for sale,
and piecemeal. They gaze at me and see
a chain-saw murder just before it happens,
when thigh, ass, inkblot, crevice, tit, and nipple
are still connected.
Such hatred leaps in them,
my beery worshippers! That, or a bleary
hopeless love. Seeing the rows of heads
and upturned eyes, imploring
but ready to snap at my ankles,
I understand floods and earthquakes, and the urge
to step on ants. I keep the beat,
and dance for them because
they can’t. The music smells like foxes,
crisp as heated metal
searing the nostrils
or humid as August, hazy and languorous
as a looted city the day after,
when all the rape’s been done
already, and the killing,
and the survivors wander around
looking for garbage
to eat, and there’s only a bleak exhaustion.
Speaking of which, it’s the smiling
tires me out the most.
This, and the pretence
that I can’t hear them.
And I can’t, because I’m after all
a foreigner to them.
The speech here is all warty gutturals,
obvious as a slab of ham,
but I come from the province of the gods
where meanings are lilting and oblique.
I don’t let on to everyone,
but lean close, and I’ll whisper:
My mother was raped by a holy swan.
You believe that? You can take me out to dinner.
That’s what we tell all the husbands.
There sure are a lot of dangerous birds around.

Not that anyone here
but you would understand.
The rest of them would like to watch me
and feel nothing. Reduce me to components
as in a clock factory or abattoir.
Crush out the mystery.
Wall me up alive
in my own body.
They’d like to see through me,
but nothing is more opaque
than absolute transparency.
Look–my feet don’t hit the marble!
Like breath or a balloon, I’m rising,
I hover six inches in the air
in my blazing swan-egg of light.
You think I’m not a goddess?
Try me.
This is a torch song.
Touch me and you’ll burn.

 

A arte da Jenny Holzer. Filmes do Gregg Araki. Textos motivacionais-quase-ridículos na internet, especialmente se cheios de menções a glitter, rosa-choque e frivolidades. Esteticamente, preppy + exageros à la Maria Antonieta + kinderwhore 90s. As playlists apropriadas no 8tracks. Um milhão de outras coisas que não consigo nem pensar agora.

 

Tavi Gevinson por Petra Collins

tavi gevinson por petra collins

 

por mariana t. k.
olho–roxo / mtkcleardot entrevista manuscrita #5 marie castro