minhas lembranças daqueles tempos no japão são fragmentos difusos & opacos, cenas que às vezes revivo mentalmente, vindas provavelmente por meio das fotos e dos vídeos revistos várias vezes depois da nossa volta pra cá. como é de se imaginar, muitas vezes acabo achando que é tudo obra da minha imaginação: piqueniques, muito vento, ficar até tarde na escola, muito gohan com furikake, montanhas, alguma praia, animes e minha bicicleta amarela.

eu tinha quase seis anos quando minha mãe decidiu voltar ao brasil comigo e com meus irmãos mais novos. foi um período bastante tumultuado e, para mim, um enorme baque. não só meus pais estavam se divorciando, como eu tinha saído de um país onde estavam meus melhores amigos, minha casa, meu quarto, onde eu sonhava em chegar ao primário e ganhar, finalmente, meu randoseru tão desejado, para então chegar aqui sem entender ou falar nenhuma palavra em português.

 


por algum motivo maluco, durante muito tempo preferi ignorar que, além de ter morado do outro lado do mundo, eu era descendente de japoneses. durante essa época, eu não gostava mais de mangás nem animes, achava todos os japoneses feios e chatos, e eu não queria ser como eles, sempre automaticamente associados a estereótipos do tipo “cdf” ou “bom de desenho”. assim, fui me esquecendo da língua, dos kanjis, hiraganas e katakanas, das músicas de sailor moon, me dizendo brasileira, brasileira, brasileira. foi assim que o japão — e tudo o que para mim me remete a ele — acabou se tornando esse lugar imaginário, longínquo e nostálgico.

óbvio que quando via os filmes do hayao miyazaki, algo lá no fundinho do meu ser brilhava (mas isso deve acontecer com todos que veem os filmes dele, certo?), alguma gaveta dentro de mim se abria e alguma coceira no meu coração eu sentia. engraçado, as pessoas mais entusiastas da cultura nipônica eram e são meus amigos ocidentais, e todos eles sempre se indignavam vendo como eu me relacionava com esse pedaço de mim. curiosamente, foi a partir do olhar deles e de outras pessoas aleatórias e desconhecidas que pude recomeçar a reconstrução do meu apego por esse passado tão negligenciado.

 

cena do filme pais & filhos (2013), de hirokazu kore-eda

cena do filme pais & filhos (2013), de hirokazu koreeda

 

desde então, fui apreendendo o japão através de filmes como lost in translation e um alguém apaixonado, intercalando com livros de haruki murakami, banana yoshimoto e ryu murakami (ainda não alcancei kenzaburo oe, yukio mishima ou junichiro tanizaki, mas chego lá), passando por verdadeiras pérolas como os filmes uma família em tóquio e pais & filhos. embora eu já não compreenda as letras muito bem, ouvir músicas japonesas ou ir à biblioteca da fundação japão me deixam extremamente nostálgica. nessa “reconciliação” com a cultura oriental, ando com uma enorme vontade de voltar pra lá, para passear.

por último, outra coisa curiosa — que talvez seja uma dessas coisas que parecem não fazer sentido mas na verdade fazem todo o sentido — é que recentemente eu passei a me abraçar mais, inteiramente. passei a gostar de mim mesma e me respeitar mais, eu acho. voltar a enxergar essas origens tem a ver com isso, não?

 

a atriz-modelo-cantora kiko mizuhara

a atriz-modelo-cantora kiko mizuhara

fotografias tiradas no japão, por miso

fotografias tiradas no japão, por miso

 

ps.: eu nunca odiei a cultura nipônica, entendam. mas infelizmente me mantive muito afastada até então. aliás, se tiverem sugestões de filmes/livros/música/afins, estou aceitando (sempre)!

 

por mariana t. k.